Palavras

por Sérgio Araújo

Conta aberta

Qual a solução?

Se no vão do meu olhar incerto,

Da minha conta aberta na atmosfera

Sou um pássaro na chuva

Nesta praça insana.

Um ponto

Num canto do mundo.

 

por Sérgio Araújo

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Solilóquio solúvel

Tarde infinita

Besouros circulam sobre a cabeceira da cama

Indiferentes

Como se andassem sobre as notas desta música fria

Solidão de tarde de domingo

Incertezas

E minha voz

Fria

Vazia

Solo de saxofone

No silêncio solúvel

Na palidez do azul entre os galhos.

 

por Sérgio Araújo

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O Requerente

Sentado num sofá improvisado com um banco de kombi, observa atento o fluxo intenso dos requerentes.
À sua direita, numa saleta abafada e barulhenta, um velho balcão de madeira derrotado pelos cupins e pelos muitos anos de serviço público servia de apoio para os que não conseguiram assento para a longa espera.
O piso lixado pelos pés de muitas ruas, pobres pés doídos e cansados, apertados desde o alvorecer, corridos nos trilhos do subúrbio, molhados na subida do barco, pisados no ônibus e, quase sempre, machucados nas irregularidades dos calçamentos.
Os requerentes são seres angustiados. Trazem em suas mãos suadas, velhos papéis, retratos de meia dúzia, envelopes pardos, filhos menores, bebês e gordura de pastel.
Calados, tímidos, barulhentos, sedentos e suados seguem embrulhados em suas roupas de requerentes compradas no fim do ano passado, e inauguradas num acontecimento que terminou com bolo de chocolate para curar a ressaca.
Do seu banco, ele observava. Não ousava sair e perder o posto conquistado por hora de chegada, por antiguidade. Como requerente experiente jazia incólume na sua longa espera.
Ele sabia como o sistema funcionava: tinha que se diferenciar dos demais requerentes. Não bastava, é claro, ficar quieto, imóvel. Era preciso conquistar o olhar do servidor. E isso não era uma tarefa fácil.
Era como uma disputa de gato e rato: Requerente e servidor. Alternando a ação ofensiva, travavam um duelo silencioso disputando o poder de ser quem é na multidão de anônimos do dia-a-dia.
Porém, naquele dia, ele perdeu. Sentindo-se aviltado pela astúcia do requerente, Almerindo Fiapos, o Notário do turno, encerrou o expediente dobrando com desprezo a plaqueta sobre o balcão de atendimento.
ENCERRADO!

por Sérgio Araújo

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O espírito do tempo

O espírito do tempo não é um fantasma, uma assombração.

Não senhor!

Ele é um vazio cheio de recordações.

Ele impregna essas paredes com suas marcas,

Arrasta suas correntes de datas,

Farfalha nas janelas os seus galhos de folhas secas.

Sussurrando como o vento,

Ele aperta o nosso peito nos tirando o ar.

Nos diz dos feitos e desfeitos,

Do paradoxo de ser o que não se é

Não sendo o que se foi, sempre.

Ele charla, nos convida a dançar

E como um louco,

Perdido em sua própria dança

Outra vez nos faz criança.

 

por Sérgio Araújo

Foto: By Raaden

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Palavras e coisas

Não há emoção apenas naquilo que dizem conter emoção.

Naquilo que dizem traduzir as muitas razões dos séculos,

Nas doses de gosto conhecido,

No que já vem sorvido.

Me emocionam as palavras que não contêm emoção pela

significação,

As palavras brutas,

Insólitas.

Porque antes de serem palavras

Foram sentimento.

Mesmo a mais grotesca e áspera,

Foi um dia emoção

Até que, criando novas flexões  e novos sons,

Irrompesse intrépida pela boca aliviada.

 

por Sérgio Araújo

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Ponta das Margaridas

Levantou às 3, às 4 partiu na velha canoa costeando o lombo do leste, devagarinho, na flor da maré grande.
Olhando de esguelha pra não esbarrar em pesqueiro coberto, Biô cantarolava baixinho e remava crispando a água nos dois lados pra fazer rumo certeiro no cardume de tainha.
Rede pronta na proa, branquinha na garrafa, já distinguia o vulto cabeludo da Ilha do Medo quando o primeiro pingo bateu como um cascudo na aba do boné.
Olhou pra cima, pro breu do céu e recebeu outro pingo. Dessa vez acertou-lhe o olho direito lavando as remelas e clareando a visão pra aurora que avermelhava acima da proa.
Biô, tirando força dos braços magros e ressequidos de muitos verões, fez a “Margarida” deslizar veloz contornado o lombo e ganhando mar aberto.
De repente, o que era claro ficou escuro, o céu enturvou e o vento soprou água do mar nas narinas de Biô. Margarida rodopiava num samba de roda encachaçado quando um peixe voador raspou-lhe a orelha e um fio de sangue correu, cor de rosa, sobre a camisa encharcada.
Lá se foi o remo, a branquinha vazou, a rede escorregando pela beirada, parecia fazer seu trabalho de todos os dias, espalhando-se sobre a água com suas bóias coloridas.
Margarida bebeu água, Biô também. O vento gelado chicoteava seu corpo, a canoa empinava e mergulhava na vaga: foi uma, veio a segunda, na terceira vez cuspiu Biô, mergulhou e não mais voltou, partida ao meio por um raio certeiro.
às 12, na praia deserta: restos de rede, tralhas de pesca, pedaços de pau, uma flor, um vidro de perfume e um rastro de peixe grande que se estendia da beira da água até o corpo de Biô.
Quem viu, contou do sorriso nos lábios do pescador e do cheiro forte de alfazema que se espalhou pela praia com a brisa leve da Bonança.

por Sérgio Araújo

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Scriptorium

Além das escadas, soluções inimagináveis para todos os mistérios sob o teto de carvão. Abóbada longínqua desde o piso ordinário, ensebado; caprichosamente sujo.

A porta de saída, na verdade, fora a próxima cena; conta da Japamala retornada na infinitude da forma.

Não é o vazio das ruas, nem suas gentes toscas que agora vejo. De perto, grotescos sulcos impregnam a superfície da tela e nela está marcada a entrada do scriptorium.

Olusco não é o nome, mas ocluso. Este é o termo que em magenta se insinua no traçado pueril das letras pintadas na tábula  inclinada pelo peso do pincel.

Agora entendo a sinuosidade das escadas, a incerteza dos sentidos na experimentação do tato, a fuga para além das portas, o reconhecimento dos rostos em cubos.

Ocluso! – Sussurrou novamente o zelador já no vazio distante – enquanto repito incessantemente, como um recado que devo transmitir e não posso esquecer: scriptorium ocluso!

Caminho não sei se para dentro ou para fora, não vejo portas. Agora é o vazio e o frio das paredes que roçam meu corpo, regelando os ossos.

Corro como um alucinado e no desvario tudo se mistura: o mosaico do piso, as portas abertas, as vozes misturadas ao assobio do vento, a cabeça da moça da loja e seu cérebro minúsculo, a muralha, o tempo.

Com um rangido, uma porta abre-se diante de mim. Sob uma viga sustentada por duas colunas romanas: a porta do scriptorium.

 

por Sérgio Araújo

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Abrigo

Mergulhou na escuridão como quem adentra um abrigo na tempestade.

 

por Sérgio Araújo

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Silêncios de entreletras

– Está tudo bem com você?

– Como vai passando os seus dias?

Sabe, eu caminho nas ruas e olho para trás, de vez em quando, só para me certificar de que não deixei rastros.

Não, não me leve a mal. Não procuro me esconder nas multidões. Só não consigo deixar de ser coletivo.

Sabe, eu sou muitos e esta multidão, de certa forma, me protege.

Ontem, um sujeito me achou. Ele me viu quando eu cruzava a calçada e um raio de luz bem fino iluminou o botão da minha camisa.

Ele limpou os olhos, franziu as sobrancelhas e encarou o vazio que deixei no espaço da rua.

Às vezes ecoo como asa de libélula e o som se propaga como se fosse numa ruina grega.

Não importa. Vou meter meus poemas nos bolsos e fazê-los cair um a um; palavra por palavra; todos os silêncios de entreletras que deslizarão sobre as pedras para murcharem na areia fina.

Será minha pista. Minhas pegadas para serem seguidas.

De qualquer forma, está tudo bem.

por Sérgio Araújo

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Roteiro

 Um roteiro dentro das palavras.
Sempre tenho dessas coisas de dizer assim:
Como se já soubessem,
Como se a conversa tivesse iniciado antes
E já estivessem a par do assunto.
Eu corro com as palavras
Num roteiro implícito.
Deixo que as cenas se percam
Na integridade do termo
E termino, interino, transliterado.
As palavras, coisas que são,
Estapeiam os atônitos interlocutores.
E eu vou recriando o meu roteiro
Com palavras destoantes.
Não preciso seguir a turba,
Preciso de uma tuba, uma tralha qualquer,
Uma metrapalavradora cuspindo letras
No seu coração banal.

por Sérgio Araújo

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Eu vim te ver

Eu vim te ver.

Ver as cores que te dei naquele dia ensolarado,

Os cantos dos olhos quando você sorri.

Vim sincronizar sua voz com os ecos na memória,

Repetir a nossa história.

Vim andando na trilha que deixei,

Relendo os versos ao acaso.

Vim sem tempo pra ficar,

Sem hora pra sair.

Vim assim:

No pretérito perfeito,

Desse jeito,

Vim.

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Uniforme de Siri

– Não me diga que sujei a roupa de domingo e não posso aparecer em público desse jeito. O pelotão dos amarrotados já dobrou a esquina e eu ainda aqui, olhando pra sua cara de taramela rachada. Pois fique você sabendo que eu rejeito todo o seu humor de serpente e nem tente me fazer ficar, pois de agora em diante não sou mais gente. Sou capitão, tenente ou indigente metido a besta no meu uniforme novo de Siri.

– Te discunjuro, peste! Quem nasceu pra Xangó  jamais será Robalo! -Pragueja a nega véia.

Volta e meia, seu Nazinho cuspia na raiz do pé de pau e entornava a branquinha sem fazer careta. Olhava em volta para se certificar de que estava ali mesmo, na sombra rala da algaroba cabocla.

Prejuízo, o vira-lata sarnento, observa tudo com seu olhar de peixe morto e o sol trombica na maré alta pra sumir devagarinho, incendiando os morros do Bom Jesus.

 

por Sérgio Araújo

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O escritório do senhor Olusco

 O casarão ergue-se à margem da rua como uma muralha  que ao longo dos seus mais de duzentos anos sustentou olhares soberanos sobre a cidade, desde suas janelas escavadas no frontispício decorado com anjos e demônios.
–  Eu quero dois sacos plásticos para colocar relíquias que enviarei a parentes distantes – disse suplicante enquanto varria o ambiente com os olhos semicerrados. Olhos de quem é míope, sabe como.
– Vamos entrar, está procurando o escritório do senhor Olusco? Sussurrou o zelador, enquanto sumia na esquina escurecida pela sujeira de mãos antigas e muitas outras imundícies que os dias acumulam nas paredes.
A escadaria parecia infinita em sua solidão e umidade. Portas entreabertas vomitavam restos de interrogatórios, gritos e culpas aparentes.
Em flashes, como nos sonhos lembrados com dificuldade ao acordar, enquanto esticava-me escada acima, sentia a estranheza das coisas, o delírio das emoções arrastadas ao limite de humanidade daquela gente.
Não sei o que faço aqui! É certo que outras lembranças me ocorrem no crepúsculo que, lá fora, pinta as paredes e sombreia os buracos do jogo de gude escavados na terra, como as sombras nas crateras da lua.
Lembro dos barcos submarinos que passavam velozes sob a caravela frágil que, talvez, não alcançasse o seu destino no azul profundo adiante.
Agora desço no caracol cinza por entre múltiplos ambientes, cores, gentes, sinas, pragas e presentes sem passado. Não sem passado quantitativo, mas sem histórias acumuladas como bagagem para o futuro, para as incertezas e circunstâncias da viagem.
De novo  a escuridão molhada que acomoda.
– Êi, eu te conheço. Não és o palhaço que comia fogo no circo de lona verde, engraxada e remendada? Como está a rumbeira? Diz aí!
O palhaço parecia não ouvir, apesar da pouca distância e ainda me lembro das partituras para clarineta jogadas sobre a mesa da sala, da lona verde e da dançarina. Linda era o seu nome. Linda morena.
Não sei mais se subo ou desço. Só a vertigem que me ilude e me leva de volta para o início ou o fim. Não sei distinguir, apenas supor que vejo o que não veria se meu ouvido interno se comunicasse direito com o cérebro.
O cérebro da moça da loja. Pelo menos a sua cabeça parecia tão pequena, que diria quase impossível comportar um cérebro humano. Mas ela me olhou de forma tão inteligente, que me apaixonei pelos poemas que, com certeza, guarda na gaveta do seu armário, em velhos cadernos escolares.
A porta. Agora a vejo. A saída desse manicômio ou condomínio. Dá no mesmo. Não é a insanidade que perturba, mas a excessiva certeza quando tudo é mistério e que se revela às migalhas, como seguir o pão de João e Maria.
Abro para o vazio das ruas com suas gentes toscas e vou.
por Sérgio Araújo
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Vida em um dia

Caminho sobre a areia

Com os olhos nas nuvens.

As mãos vagueiam na atmosfera úmida.

Sinto

E vejo as estrelas mortas na praia.

Tudo é amplidão

E espuma

Que o vento desintegra.

 

por Sérgio Araújo

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Retratos

Há menos mistérios nas cores do dia.

Vejo agora o que antes perdia-se no afã dos sorrisos fartos,

Os detalhes se insinuam

Como estrelas no amanhecer

E eu os apanho com destreza.

Não vejo nisso uma façanha,

O que me importa

São as histórias inacabadas que completarei

Os assuntos sem memória que se pronunciam ao léu,

Os retratos sem faces no mosaico das ruas…

 

por Sérgio Araújo

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Noite

Como crateras escavadas na noite densa para abrigar os restos de sua alma vazia; assim eram os olhos de Zulmira. Não via nos becos sórdidos a decadência das gentes, mas uma potencialidade para o inesperado e o fatídico.

Ela zombava do tempo e do ser. Nas tempestades da carne e no redemoinho da embriaguez delirante encapsulava antídotos e panaceias para os breves dias de amarga lucidez.

Em outros palcos, novos atores, velhos canastrões, máscaras partidas no relance dos braços e abraços enclausurados na inconsistência da troca. Nada de afetos afoitos ou sinceras desculpas.

Gente se parte ao meio – dizia – como quem rasga uma antiga fotografia para segregar memórias. Zulmira, a dama da noite, rompia a escuridão tateando na atmosfera onírica do seu próprio destino encrostado nas pedras das ruas.

Zulmira, por trás da fumaça, imprimia no ar um sorriso ácido como o blues que brilhava na superfície negra do vinil.

 

por Sérgio Araújo

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Metonímia

O vagão arrasta seus aros de aço

Os olhos esbugalhados simultaneamente fragmentados

no vapor fugaz

Um traço

Rangem esferas de rostos

Não há palavras

Apenas espelhos em cacos

Cada uma ponta

Afia uma outra imagem

E aponta

Em diferentes pontos

Os fragmentos do todo

E o desdobro

Do olho panorâmico de Bentham

Estacionário e sinérgico

Como num quadro futurista

Ou num filme de Eisenstein.

 

por Sérgio Araújo

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O mar avança

O mar avança sobre os pés de Hermes, enquanto uns peixinhos nadam apressados nas poças rasas e transparentes junto às pedras da praia.

O silêncio proporcionava uma sensação de comunhão com o universo. Só, Hermes sonhava olhando o horizonte alaranjado como numa ilustração de livro infantil

Nada mais poderia ser tão importante a ponto de quebrar a sintonia  daquele instante quase mágico, tão simples e tão complexo como o sentido de tudo.

Estava tudo ali e, ao mesmo tempo, nada parecia explicar-se por si só. O caso é que Hermes sabia não ser. Talvez nem soubesse. Na dúvida, ele varou o espaço com lascas de vidro do seu olhar turvo e inquiridor.

Adiante, o sussurro do vento o nada.

 

por Sérgio Araújo

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A sós com as palavras

Estamos todos sós

Nos arranha-céus,

No beco imundo,

Nos jardins…

Eu estou só

E quanto mais fundo vou,

Mais alto estou.

A distância não separa,

Mas preenche o campo de visão

Como se observa uma maquete:

A forma reduzida,

A realidade apreciável do todo.

Há sempre que nomear

O que se vê daqui.

Nada é o mesmo

E mesmo que seja será sempre  inominável,

Porque palavras,

Não as tenho para tal fim.

Me perco e me acho nos signos

E embora clara a visão,

É minha a construção do objeto que se mostra.

Dou forma e retenho a imagem,

O que sobra não é minha obra,

Mas aparas ressequidas

Que nada contam sobre a figura esculpida.

 

por Sérgio Araújo

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Zulmira perdida na noite fria

Então, ela via aquelas pessoas passando e repetindo gestos conhecidos, aquelas situações que há muito observava e que as devolvia, quase sempre, envoltas em metáforas para purificar a praça.

Uma espécie de dèjá vu em espiral. Agora ela compreendia que o retorno é eterno. As unidades vão e vêm para ocupar os papéis definidos: um arlequim, uma colombina, um palhaço de esquina, um líder, um zé ninguém…

Zulmira, a dama dos ratos, podia mudar seu destino e romper com o script original mas estaria apenas assumindo outro papel no teatro ao lado; na peça alheia que maternalmente lhe acolheria.

Ela se aquece agora na fogueira enquanto os mascarados avançam com suas tralhas e pretextos. O próximo ato flutua sobre as cortinas como uma nuvem,  psicodélica nuvem de velhas tempestades.

Um encontro consigo na confusão da rua. Entre cacos e restos de tudo: um olhar que não vê, uma lembrança descabida e Zulmira perdida na noite fria.

 

por Sérgio Araújo

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