Palavras

por Sérgio Araújo

Linhas pontilhadas

Rabiscando no topo da página em branco, sutilmente, foi transportado para além das pautas; essas bitolas  horizontais que suportam e aprisionam o sentido das coisas. Como representar, já que nada havia para suportar seus rabiscos, a profusão de sons, cores e formas que experimentava naquele instante único e estranhamente desafiador, de modo a fazê-los contidos em seus próprios universos atomizados e espalhados na geleia disforme e ilimitada?

De súbito reparou que começara a projetar as suas reminiscências intercaladas nas letras, palavras e frases que, como muros, aprisionam os sentidos e os desígnios; as ideias. Muros altos para as subversões, médios para os desencantos e quase nada, pequenas cercas de jardim, para as angústias passageiras, daquelas que aparecem pela manhã e são logo esquecidas na labuta do dia.

Ora, ora. – Cogitou com um sorriso tímido – teria pretensão maior ao escrever numa folha de caderno barato que preencher vazios estruturais com personagens e suas vivências fantásticas e, às vezes, tão simples como as nossas próprias? Não seria assim? Escrever em linhas pontilhadas?

A dúvida lambia as tênues certezas com sua língua áspera, que recolhia com vivacidade para saborear ruidosamente, esfregando-a nos lábios verdes da sua boca de dragão. Enquanto isso, seus dedos flutuavam devorando vazios na infinitude da página.

por Sérgio Araújo

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Poeta e Professor.

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Categorised as: Prosa


One Comment

  1. É isso, escrever é uma forma de extravasar sentimentos, sejam grandes ou pequenos. bjs

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