Palavras

por Sérgio Araújo

Lá fora

As nuvens pareciam pesadas demais para poder flutuar acima de todas as coisas. O chão sequer sustentava as carapaças ancestrais, ao léu, soterradas no Humo.

Como um retrofoguete, um foco de luz acelerou sobre sua cabeça e ele curvou-se feito artista ovacionado pela platéia da Avant-première. Lá fora não há proteção. O palco é vasto e profundo. Nem a trufa nem a fruta, o fel é o sabor.

Ofuscado pela luz intensa ele vagueia intruso na cegueira alheia e desinteressada. O palco gira e a dança dos rasos irrompe das cortinas rotas como um tropel sôfrego sobrepondo as máscaras a cada salto.

Agora ele é de foz em fora, soluto na imensidão unânime da sua espécie. Não há retorno, apenas o entorno; engenho lúdico que impele a súcia para o vazio.

Meditabundo, a um canto se acomoda. Seu pensamento recolhe as reticências da história e as compila na trama do córtex. Queria poder secretar os juízos e, como panaceia, pulverizar a multidão fazendo arco-íris numa manhã de primavera.

 

por Sérgio Araújo (foto: deviantart by senicar)

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Poeta e Professor.

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Categorised as: Prosa


3 Comments

  1. Grande, Sérgio.

    Pra variar, você dá um show. Extremamente plástico o Lá fora. Por um momento visualizei um holofote da polícia batendo no biltre, por outro, um canhão cênico enquadrando a própria existência do sujeito.
    Parabéns, meu bom amigo desse também maravilhoso litoral baiano.
    Um abraço de seu amigo do sertão caipira,
    Alaor Ignácio

  2. Lá fora é a escamoteação daquilo que sonhamos.Ilusão de ótica, tão necessária quanto cruel.
    Um abraço, Serjão!

  3. sérgio,
    grato pelas palavras.
    estarei aqui sempre.
    grande abraço,
    denison

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