Palavras

por Sérgio Araújo

Archive for the ‘Prosa’ Category

Linhas pontilhadas —

Rabiscando no topo da página em branco, sutilmente, foi transportado para além das pautas; essas bitolas  horizontais que suportam e aprisionam o sentido das coisas. Como representar, já que nada havia para suportar seus rabiscos, a profusão de sons, cores e formas que experimentava naquele instante único e estranhamente desafiador, de modo a fazê-los contidos […]

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O diário do dia de ontem —

Sendo ainda criança, não sabia das regras do mundo. Nada sabia daquilo que obrigava os homens a trabalhar por dinheiro, as mulheres a servir e as crianças a desobedecer os ditames; fardos, que os adultos carregavam com grande sacrifício e compartilhavam entre si, arrastando suas hipocrisias sutis. Posto que não saber é um tipo de […]

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Um som passou por aqui —

Um som passou por aqui. Deixou suas marcas no silêncio entre o sol e o lá. Silêncio cheio de falas na sala imensa em cujo eco abundam coisas de sentir. Digo de eras entrelaçadas e fantasias inteiras curtidas no limiar da claridade da manhã. Soltas, as notas se vão, prolongando os lumes como se fossem […]

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O Requerente —

Sentado num sofá improvisado com um banco de kombi, observa atento o fluxo intenso dos requerentes. À sua direita, numa saleta abafada e barulhenta, um velho balcão de madeira derrotado pelos cupins e pelos muitos anos de serviço público servia de apoio para os que não conseguiram assento para a longa espera. O piso lixado […]

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Ponta das Margaridas —

Levantou às 3, às 4 partiu na velha canoa costeando o lombo do leste, devagarinho, na flor da maré grande. Olhando de esguelha pra não esbarrar em pesqueiro coberto, Biô cantarolava baixinho e remava crispando a água nos dois lados pra fazer rumo certeiro no cardume de tainha. Rede pronta na proa, branquinha na garrafa, […]

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Scriptorium —

Além das escadas, soluções inimagináveis para todos os mistérios sob o teto de carvão. Abóbada longínqua desde o piso ordinário, ensebado; caprichosamente sujo. A porta de saída, na verdade, fora a próxima cena; conta da Japamala retornada na infinitude da forma. Não é o vazio das ruas, nem suas gentes toscas que agora vejo. De […]

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Abrigo —

Mergulhou na escuridão como quem adentra um abrigo na tempestade.   por Sérgio Araújo

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Silêncios de entreletras —

– Está tudo bem com você? – Como vai passando os seus dias? Sabe, eu caminho nas ruas e olho para trás, de vez em quando, só para me certificar de que não deixei rastros. Não, não me leve a mal. Não procuro me esconder nas multidões. Só não consigo deixar de ser coletivo. Sabe, […]

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Uniforme de Siri —

– Não me diga que sujei a roupa de domingo e não posso aparecer em público desse jeito. O pelotão dos amarrotados já dobrou a esquina e eu ainda aqui, olhando pra sua cara de taramela rachada. Pois fique você sabendo que eu rejeito todo o seu humor de serpente e nem tente me fazer […]

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O escritório do senhor Olusco —

 O casarão ergue-se à margem da rua como uma muralha  que ao longo dos seus mais de duzentos anos sustentou olhares soberanos sobre a cidade, desde suas janelas escavadas no frontispício decorado com anjos e demônios. –  Eu quero dois sacos plásticos para colocar relíquias que enviarei a parentes distantes – disse suplicante enquanto varria […]

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Noite —

Como crateras escavadas na noite densa para abrigar os restos de sua alma vazia; assim eram os olhos de Zulmira. Não via nos becos sórdidos a decadência das gentes, mas uma potencialidade para o inesperado e o fatídico. Ela zombava do tempo e do ser. Nas tempestades da carne e no redemoinho da embriaguez delirante […]

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O mar avança —

O mar avança sobre os pés de Hermes, enquanto uns peixinhos nadam apressados nas poças rasas e transparentes junto às pedras da praia. O silêncio proporcionava uma sensação de comunhão com o universo. Só, Hermes sonhava olhando o horizonte alaranjado como numa ilustração de livro infantil Nada mais poderia ser tão importante a ponto de […]

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Zulmira perdida na noite fria —

Então, ela via aquelas pessoas passando e repetindo gestos conhecidos, aquelas situações que há muito observava e que as devolvia, quase sempre, envoltas em metáforas para purificar a praça. Uma espécie de dèjá vu em espiral. Agora ela compreendia que o retorno é eterno. As unidades vão e vêm para ocupar os papéis definidos: um […]

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A música dos planetas —

Aqui estou, fruto da minha própria ilusão. Debalde escorrego como uma barata sobre uma ponte que constrói-se e dissipa-se conforme a sombra esguia do meu corpo avança. Trago em minhas malas, restos de planos em papel embrulho, perguntas sem respostas, pingos de chuva que não secaram com todos os verões e ainda refletem, estranhamente, a […]

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A Notícia —

Quem olhasse para o estrangeiro naquele momento, veria seu corpo iluminado como se um raio de luz incidisse sobre a superfície plana de um espelho, projetando-se sobre sua figura nebulosa que desaparecia enquanto a luz se intensificava e se expandia ferindo o espaço que o separava do caçador. Em sua curta duração, o raio de […]

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Através das coisas —

Não sabendo mais o que pensar, acomodou-se com gestos lentos ao assento. As luzes riscavam em cores quentes a janela cortada ao meio pela cortina de tecido vermelho. Retalhos de noite. Escapam-lhe os sonhos efêmeros que escorregam como lágrimas. Através dessas coisas, a moça do lado está mais próxima. Não vê, sente! Ele cavalga agora […]

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Nave de plasma —

José estava ficando velho. Apesar da contagem do tempo, não era a cronologia que marcava como tatuagem de dragão, a alma inquieta do nosso amigo. O que ele não tolerava  e lhe tragava a insignificante existência era um querer quase insano. Ele esperava por não saber procurar. E, nessa espera, desaguava sua incompleta aventura em […]

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O ilustre desconhecido —

Observava tudo ao seu redor com a argúcia de quem investiga um crime ou um fenômeno obscuro. Naquela sala podia passear com os olhos pelas ações e reações dos presentes. Não deixou de notar aquela pessoa que parecia estar pouco à vontade. O que lhe incomodava era um livro. Sim, um livro que, a julgar […]

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Lá fora —

As nuvens pareciam pesadas demais para poder flutuar acima de todas as coisas. O chão sequer sustentava as carapaças ancestrais, ao léu, soterradas no Humo. Como um retrofoguete, um foco de luz acelerou sobre sua cabeça e ele curvou-se feito artista ovacionado pela platéia da Avant-première. Lá fora não há proteção. O palco é vasto […]

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Da natureza das coisas —

Fazia-lhe referência, frequentemente, para confirmar um pensamento. “Força e Matéria”, de Ludwig Büchner. Era uma questão de gratidão  ao mestre e, ao mesmo tempo, lhe permitia um inebriante orgulho intelectual que procurava não disfarçar e deixava que o percebessem como um leve ar de superioridade. Era absurda a incapacidade deles em compreender a verdadeira identidade […]

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